Mineirão

EXCLUSIVO: RAINHA MARTA, PRIMEIRA E ÚNICA

7 de junho de 2019

Por: Rivelle Nunes

Ao caminhar pelas ruas do centro de Maceió, é possível se deparar com a pintura, em um muro de uma faculdade, de rostos de grandes alagoanos. Na obra estão Graciliano Ramos, autor do clássico Vidas Secas, os músicos Hermeto Pascoal e Djavan; além do cineasta Cacá Diegues. Zumbi dos Palmares, um dos primeiros a lutar contra a escravidão no Brasil, também representa o estado.

Outros grandes nomes da cultura, sociedade e esporte alagoanos também poderiam estar presentes. Como por exemplo, a dupla de campeões do mundo pela seleção brasileira em 1958, Dida e Zagallo, o primeiro um dos maiores craques do Flamengo e ídolo de Zico, o segundo, campeão do mundo outras três vezes. A dupla de craques também representariam de forma notável futebol do estado.

Assim como faz uma mulher franzina na estatura, mas forte e firme nos posicionamentos e na luta pelos objetivos. Marta Vieira da Silva é natural de Dois Riachos, pequena cidade a 200 km da capital, já no sertão de Alagoas. De lá saiu menina, aos 14 anos, para conquistar o mundo com a bola nos pés. Nenhum ser humano do planeta subiu mais vezes no palco para receber o prêmio de melhor jogador do mundo da FIFA. No midiático cenário do futebol, dominado por estrelas como Cristiano Ronaldo e Messi, uma mulher do sertão tem a honra de ter, por seis vezes, o mundo aos seus pés.

Nascida em fevereiro de 1986, a canhotinha é dona da camisa 10 da seleção brasileira há mais de 16 anos. Com ela, conquistou duas medalhas de prata olímpicas, dois ouros pan-americanos e foi vice-campeã mundial. Foram, até o final de 2018, 110 gols marcados com a camisa amarelinha. Já que são inevitáveis as comparações dos seus feitos com o mundo masculino do futebol, nesse quesito ela superou Pelé. O maior goleador da seleção masculina fez 95. Ela já balançou as redes 15 vezes em copas do mundo, enquanto o alemão Miroslav Klose marcou 16 gols na principal competição de futebol do planeta e pode ser ultrapassado por ela no mundial da França, que começa hoje. Seis vezes melhor do mundo, maior artilheira da seleção brasileira e prestes a se tornar a maior goleadora das copas, Marta não é uma Pelé de saias. Marta é, por méritos próprios, um fenômeno.

Foto: Agencia i7

Entre tantas glórias, a conquista que mais emociona a rainha não aconteceu diretamente dentro dos gramados. Ser empossada Embaixadora da ONU é, segundo ela, a coroação não de uma carreira de atleta, mas de uma história de vida. Ao lado da alagoana do sertão, apenas as atrizes de Hollywood Nicole Kidman, Emma Watson e Anne Hathaway desempenham o papel global de representante da Organização das Nações Unidas pela igualdade de gênero e empoderamento das mulheres. No seu confortável recanto, onde descansa algumas semanas no ano na região metropolitana de Maceió, Marta exibe orgulhosa o diploma da ONU Mulheres, ao lado de um pôster com uma foto e dedicatória do rei Pelé e diversas medalhas, troféus e, claro, bolas de futebol.

O não, o trote e a glória

Uma das mais vitoriosas carreiras da história do futebol brasileiro começou quando recebeu um não. Destaque nos campeonatos de futebol de campo e futsal em Dois Riachos e região, a filha da dona Tereza foi impedida por um treinador de continuar jogando com os garotos. “O não, às vezes, serve de incentivo”, destaca. Aquele não, aliado ao sonho e à perseverança, fez com que ela subisse em um ônibus no sertão e desembarcasse no Rio de Janeiro, dois mil quilômetros longe de casa, para um teste no Vasco. Com a camisa do time da cruz de malta, tabelou com o talento para driblar a timidez e o receio de viver em uma metrópole. A carreira estava apenas começando. Depois do Rio, cruzou as montanhas para seguir o sonho em Belo Horizonte. Sempre alternando entre o campo de futebol e a quadra de futsal, passou quase dois anos atuando pelo Santa Cruz, clube amador da capital mineira. Até que o telefone de uma quadra de esportes em Contagem tocou procurando por Marta. “Suécia? Eu nem sei onde fica a Suécia. Isso é trote” disse, desconfiada. Não era e aquele telefonema mudou a vida da menina de Dois Riachos.

No frio sueco, jogando pelo Umeå IK, aprendeu a língua e passou a ser uma profissional do futebol, com rígida disciplina de horários e treinamentos. Depois de vencer a fome, o preconceito e a falta de apoio ao futebol feminino, tão constante no Brasil, chegar ao estrelato era questão de tempo. E Marta chegou.

Em uma das poucas semanas do ano que pode se dar ao luxo de descansar, reunir os amigos e curtir uma roda de viola em casa, seu grande hobby, Marta recebeu o Mineirão para uma conversa sobre as dificuldades do início da carreira, as conquistas e o futuro. A impressão passada pela simplicidade e luta da rainha Marta é que embora tenha conquistado muito, ela merece muito mais.

Você tem dimensão da sua real importância para o futebol?

Eu não fico pensando nisso. Procuro não focar muito nessas questões para não perder o real interesse no que eu quero fazer, que é o meu trabalho, sempre buscando o melhor e através dele poder incentivar a garotada, meninas e meninos, a seguirem uma trajetória no esporte. Quando se fica pensando que você é isso ou aquilo, ou no que você ganhou, é fácil perder o foco do que é preciso fazer. Mas é claro que sei que as pessoas me acompanham, me admiram, que tenho minha importância, e é justamente isso que me mantém motivada.

Foto: Gustavo Sarmento

Você escreveu um artigo para o Players Tribune. Uma carta para a Marta jovem, de 14 anos, saindo da sua cidade. É um artigo muito emocionante, forte. Se a Marta de 14 anos se encontrasse com a Marta de 33, o que aquela garota diria para a mulher que você se tornou?

É uma pergunta difícil, mas eu acho que aquela menina gostaria de chegar aonde eu cheguei. Ela falaria que gostaria de ser uma atleta vitoriosa, com títulos pelos seus clubes, que gostaria de jogar futebol e seguir o exemplo da Marta mulher.

Em várias das suas entrevistas você se emociona bastante. Seja nas cerimônias da FIFA de entrega dos prêmios de Melhor do Mundo, em grandes vitórias pela seleção e também nas derrotas. Você acha que se emociona mais com o futebol ou acredita que você emocione mais aqueles que acompanham a sua carreira?

Nossa! Outra pergunta bastante difícil (risos)… Tanto eu quanto as pessoas se emocionam porque é uma história de vida, que inspira várias outras pessoas a buscarem seus objetivos, não somente no esporte, mas em qualquer área. Por esse motivo, quando conquisto algo, ou quando me veem subindo para receber um prêmio, a emoção aflora porque eu me lembro do passado e tudo que tive que superar para vivenciar esses momentos de glória. E toda essa emoção é passada para as pessoas, tanto jogando futebol como contando a minha história.

Foto: Gustavo Sarmento

Como é para você sair menina de Dois Riachos e se tornar Embaixadora da ONU?

É fantástico! É o prêmio mais importante que eu já conquistei em toda minha vida, porque se tornar embaixadora não é status, foi a minha história que proporcionou isso. Eu me emociono para caramba falando sobre isso porque se você olhar as embaixadoras que também estão lá são atrizes de Hollywood e, junto a elas, tem uma brasileira, alagoana, do sertão. É o que recebi de mais prestígio e eu sei que veio do meu trabalho, da minha história.

Você já revelou que sofreu muito quando foi disputar um campeonato de futsal e um treinador de um time rival disse que tiraria o time dele de campo se você jogasse. Olhando pra trás, você teria algo a dizer para esse treinador, caso se encontrasse com ele?

Eu falaria muito obrigada! Falaria isso porque foi através desse não que eu recebi que eu fui para o Rio de Janeiro fazer o teste no Vasco. Foi nesse momento que tive a oportunidade de ficar dois anos no Rio de Janeiro e me mostrar para os dirigentes da CBF e chegar na seleção brasileira. Esse não dele foi porque eu já havia jogado dois anos e no terceiro ele não queria que eu jogasse. E esse não me empurrou para frente! Eu entendo que ouvir um não é válido, porque ele pode te jogar para frente e para cima.

Muita gente não sabe, mas você teve um período da sua carreira em Belo Horizonte, jogando pelo Santa Cruz. Como foi isso? Como você chegou a BH? Onde você morava?

Eu morei dois meses na casa de uma amiga, a Ludmila, no bairro Alípio de Melo. Depois me mudei para o Madre Gertrudes e minha vida em BH foi muito focada. Como eu sempre fui muito quieta, eu não saia muito. Era de casa para o treino e fiquei um ano em Belo Horizonte. Fiz amizade com muita gente, tenho amigos até hoje, como a Vera, que era a dona do time. E o time tinha uma parceria com uma equipe de futsal de Contagem. Então era a Vera comandando o time de futebol de campo e a Soninha o time de futsal, e eu jogava nos dois! São minhas amigas até hoje, outras atletas que jogaram comigo também são, mas é difícil eu ir a BH, porque a correria é muita, mas elas sempre me cobram quando eu irei a BH. É uma cidade que eu gosto muito, de um povo muito acolhedor e foi um período muito legal da minha carreira. E foi de Belo Horizonte que eu fui para a Suécia. Quando eu recebi a proposta, a ligação foi para o escritório da quadra de Contagem onde jogávamos. Eu me lembro que a Soninha atendeu e eu não acreditei, falei com ela que era trote. Eles insistiram… Esse interesse do Umeå IK apareceu em 2003, quando joguei um campeonato mundial nos Estados Unidos com a seleção e eu tinha 17 anos. Jogamos contra a Suécia nas oitavas de final, perdemos de 2 a 1, eu fiz o gol do Brasil e o presidente do clube assistiu ao jogo. Depois do campeonato, uma emissora de TV sueca veio ao Brasil fazer uma entrevista com o Robinho, na época do Santos, e aproveitou e fez uma entrevista comigo em BH. Essa entrevista e o jogo despertaram o interesse. Daí eles ligaram e disseram que queriam que eu fosse pra lá, um lugar que eu nem sabia onde era.

Foto: Gustavo Sarmento

Você já declarou que se inspirava muito no Rivaldo jogando futebol. Além dele, você tem outros ídolos no esporte?

Eu sempre acompanhei muito os atletas brasileiros, mas eu gosto muito do Cristiano Ronaldo também. Eu amava ver o Ronaldinho jogar, um gênio. O Ronaldo também. O Brasil é rico na formação de craques. Eu gostava do Rivaldo, mas meu ídolo para a vida sempre foi a minha mãe! No esporte eu nunca tive um ídolo, sempre tive na vida. Lógico que por ser canhoto, jogar na seleção, com a camisa 10, e no auge, em 1998, 1999, foi quem eu mais acompanhei. Mas depois veio também o Ronaldinho, o próprio Neymar hoje. Mas como eu gosto esportes, de futebol, sempre assisto aos jogos querendo pegar um pouco de cada, sempre inspirada nos nossos atletas.

Algum dos seis títulos de melhor do mundo da FIFA foi mais especial?

Todos são especiais, claro, mas o primeiro foi o que marcou mais. Aquele momento em que lembro que consegui chegar e ser a melhor jogadora do mundo, esse marcou pra caramba, mas o último também foi marcante, porque desde 2010 eu não ganhava. Não era algo que eu perseguia, mas tenho em mente que sempre que eu estiver jogando, de forma competitiva, quero dar o meu melhor e estar entre as melhores. Sempre! E voltar a ganhar depois de oito anos, foi muito, muito especial. E repercutiu muito por ter ultrapassado o Messi, o Cristiano Ronaldo. A galera tira uma onda com isso, mas eu não entro na resenha (risos). Mas esse título mais recente eu senti que poderia acontecer; é lógico que na hora há uma dúvida, não é igual ao Messi ou Cristiano que praticamente sabem que vão ganhar. É sempre uma expectativa muito grande.

O maior obstáculo para o futebol feminino ainda é o preconceito?

Com certeza. Se você não tem, nas escolas principalmente, a opção do futebol para as meninas, como é que os meninos vão entender que é um esporte para elas também? Esse preconceito tem que ser quebrado na escola e os pais têm que cobrar das escolas que haja futebol, porque as meninas querem jogar, mas não têm oportunidade. E quando elas vão jogar com os meninos, eles falam que não é esporte para elas. Se começar a ser implantado nas escolas essa modalidade, teremos mais crianças praticando o esporte, sem o preconceito que presenciamos hoje em dia. É esse preconceito que dificulta a formação de uma equipe. Hoje há obrigação de ter times femininos para os clubes que vão jogar a Copa Libertadores masculina, mas não deveria ser assim. Teria que ser espontâneo, mas como disse, o grande problema é não ensinar isso no colégio, quando as crianças estão aprendendo. É necessário começar a partir dessa idade.

Foto: Agencia i7

Sair do Brasil para jogar na Suécia mudou a sua vida?

Mudou sim. Nós sabemos que hoje no Brasil há mais opções para jogar, mas naquela época a dificuldade era bem maior do que hoje. Nós treinávamos três vezes na semana, não era todo dia, e ir para a Suécia me tornou uma atleta mais profissional porque eu vivia para isso. Era um trabalho que eu tinha que me dedicar porque se não eu não veria resultado. Quando eu fui para a Suécia aprendi a falar a língua, a cozinhar, a chegar no horário, ter disciplina. Foi nessa época que me tornei uma pessoa melhor, mais dedicada ao futebol, porque trabalhar todos os dias, fazendo aquilo que eu quero fazer, automaticamente a evolução apareceu. A Suécia foi uma virada na minha vida.

Está chegando mais uma Copa do Mundo, na França, a seleção brasileira é favorita, na sua opinião?

Não coloco o Brasil como uma seleção favorita. Estamos passando por uma transição, houve a troca de comando, a saída da Emily e a volta do Vadão e aquela reação de algumas atletas não quererem mais jogar, além disso outras pararam. O Vadão teve que reunir um grupo e, junto com algumas meninas novas, começamos um trabalho de renovação com um pouco de experiência, como a Formiga, eu, a Cristiane. O Brasil não é favorito, mas vamos chegar para brigar, e muito, com os grandes.

Você pensa em voltar a jogar em algum clube no Brasil?

Eu já tive algumas propostas para voltar ao Brasil, mas ainda não é o momento. Hoje eu penso em fazer uma boa temporada no Orlando, um grande mundial com a seleção brasileira, tentar esse título que sonhamos tanto. Hoje não tenho em mente voltar a jogar no Brasil.

Foto: Gustavo Sarmento

Você está a um gol de igualar a marca do alemão Klose e se tornar a maior goleadora da história das Copas do Mundo. Esses números são importantes para você?

É gratificante sim, porque eu vivo de desafios e esse é mais um que tenho pela frente. Mas eu sempre digo que o objetivo maior é a equipe jogar bem, ganhar e conseguir os resultados, porque se eu fizer dois, três gols, e perdermos no final, não valerá nada. Eu prefiro não marcar os gols e a gente ganhar de alguma outra maneira. Mas quando aparecem essas oportunidades é que eu busco vencer esses obstáculos pessoais.

Você se recorda daquela partida contra a Austrália, no Mineirão, válida pelas quartas-de-final da Olimpíada?

Lembro demais! Sofremos demais naquele dia porque era para termos vencido no tempo normal, perdemos gols incríveis. Depois chega na disputa de pênaltis e eu erro a minha cobrança. Eu só pensava na Bárbara me salvar defendendo a última cobrança. E foi muito emocionante, porque ela realmente defendeu. Só de lembrar eu fico emocionada com aquele clima, da seleção feminina ficar marcada por tanta emoção na história do Mineirão. A galera vibrou muito, com aquele milagre da última cobrança.

Obs: Material disponível para reprodução, desde que seja citada a fonte como Site do Estádio Mineirão

Agradecimento especial à MField e Flávio Santos